UHF : Absolutamente Ao Vivo (DVD)

Rock / Portugal
(2009 - Am Ra Discos)
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Les paroles


1. "NO PALCO"

"Nem sempre tenho sido sincero para vós, para mim.
Dá para perceber. Às vezes estou longe de vos dizer
o que sinto, o que guardo, o que foge e, assim, porque minto.
Mas se um dia cair em palco e as luzes se apagarem,
sois vós que guardo no eterno guardar.
Ergam a canção bem alto, soltem a emoção.
A vida não é um bocado, a vida é toda a paixão."


2. QUANDO (DENTRO DE TI)

Quando te sentes em baixo
e o mundo está confuso,
Quando o sonho é pecado
e tu apenas intruso.

Quando o dia amanhece
Há uma força dentro de ti
E dentro de mim.

Quando te negam a água
e à volta só deserto,
Quando os amigos falham
e a aposta não deu certo.

Quando o dia amanhece
Há uma força dentro de ti
E dentro de mim.

Quando sentes que o destino
te prega uma partida,
Quando sentes o perigo
de não haver saída.

Quando o dia amanhece
Há uma força dentro de ti
E dentro de mim.


3. NOITES LISBOETAS

Começas num copo
talvez de cerveja,
Sentado à mesa
entrando na conversa.

Mulheres que chegam
por entre gargalhadas,
Um brilho nos olhos
e um vazio na alma.

Noites lisboetas
de histórias acesas,
Os bares estão cheios
segurando as presas.

Quartos alugados
ilhas de pouca luz,
Dá-me noites sentinelas
e vómitos de verde cru.

Noites lisboetas
de porta em porta,
Noites lisboetas
fantasmas à solta, à solta com rédeas.

Há um ser empoleirado
nas pernas de um juiz,
Tentando escapar
às misérias do país.

Amores num carro
num parque deserto,
Tapando a boca
dois gritos em seco.

Noites lisboetas
de porta em porta,
Noites lisboetas
fantasmas à solta, à solta com rédeas.

O sorriso é cínico
nas rugas do asceta,
Entre o whisky e o degelo
rio azul em folha branca.

E o mundo refaz-se
e o álcool já sobe,
Trocam-se beijos
nessa mesa de homens.

Noites lisboetas
de porta em porta,
Noites lisboetas
fantasmas à solta, à solta com rédeas.
Lisboa, Lisboa, Lisboa.


4. OS PUTOS VIERAM DIVERTIR-SE

Os putos estão aqui, para te mostrar que é assim
que tudo começa, os putos vieram divertir-se,
Os putos saíram de casa, pela estrada da fama
em cada concerto, os putos souberam divertir-se.

Juntos p'ra vencer, pagaram p'ra tocar
Venha quem vier, os putos vieram p'ra ficar.

Filhos desta terra, cresceram à pressa
doa a quem doer, os putos vieram divertir-se,
Por isso em cada canção, oiço a voz de uma nação
os putos e os fãs, juntos, vieram divertir-se.

Juntos p'ra vencer, pagaram p'ra tocar
Venha quem vier, os putos vieram p'ra ficar.

Os putos estão aqui, para mostrar que foi assim
que tudo começou, os putos vieram divertir-se,
Juntos p'ra vencer, pagaram p'ra tocar
Venha quem vier, os putos vieram p'ra ficar, p'ra ficar.


5. BRINCAR NO FOGO

Jogar um jogo
eternamente,
Lançando fogo
a toda a gente.

No alto risco
a tentação,
O imprevisto
provocação.

O fogo posto
rastilho aceso,
Escondes-me o rosto
não sei se quero.

Ser e não ser
e até fingir,
Quero tremer
deixa-me ir.

Brincar, brincar e o fogo a queimar
Brincar, brincar e o fogo a queimar
Brincar no fogo.

Venho sem medo
como um intruso,
Um vento seco
um sopro surdo.

Toca no fogo
leva-me a sério,
Sou o actor
deste mistério.

A história é curta
rocambolesca,
A chama em luta
é chama acesa.

Quero mentir
quero enganar,
Não sei fugir
vais-me apanhar.

Brincar, brincar e o fogo a queimar
Brincar, brincar e o fogo a queimar
Brincar no fogo.

E se a farsa não tiver fim
foi a brincar que me perdi.
Brincar no fogo, brincar no fogo
Brincar, brincar e o fogo a queimar,
Brincar no fogo, brincar no fogo.


6. JURO QUE TENTEI

Cuido de ti à distância
sem moldar a vontade,
Diz o homem à criança
que o amor é liberdade.

Talvez um dia saibam
que andei por aqui,
E as palavras cantadas
foram escritas para ti.

Juro que tentei
juro que percorri,
Mil caminhos, eu sei
à procura de ti.

És a flor que descobri
porta aberta do sonho,
Diz-me a voz que há em mim
que nascemos um p'ro outro.

Musa, tens o meu amor
céu azul no oceano,
Arco Íris do pintor
lá na serra do Santo.

Juro que tentei
juro que percorri,
Mil caminhos, eu sei
à procura de ti.

No jardim caem folhas
desenhando o outono,
Como palavras soltas
de um poema nosso.

"Mesmo que eu queira, que eu possa, que eu saiba
refugiar-me na terra dos deuses, há sempre um momento
de fraqueza. Subo o som pela casa, procuro tarefas usando
o manto da disciplina. Guardo o teu encanto bem longe, no
oceano. Esqueço o fogo brando do coração que me avisa,
se o escuto: "fica bem."

"E então, sim, eu fico bem. Oiço a voz que vem de dentro,
sossego. Espero, Mestre, espero que o tempo se apresse
e tu chegues: Será que ainda me conheces, será que sabes
que morro por ti, que a paisagem se apaga, que a vozearia
se cala, que nada me entusiasma sem ti a meu lado,
será que sabes que eu não sei matar as saudades."

Juro que tentei
juro que percorri,
Mil caminhos, eu sei
à procura de ti.


7. FOGE COMIGO MARIA

Foge comigo Maria
para longe desta terra,
Meu amor p'ra toda a vida
é a paixão que nos leva.

Foge, comigo Maria
Foge, comigo Maria, já.

Se tu fosses girassol
eu seria beija flor,
Nesta cama sem lençol
se repete o nosso amor.

Foge, comigo Maria
Foge, comigo Maria, já.

Deita fora esse lenço
não te quero a chorar,
Se o teu pai é burro velho
só nos resta não voltar.

Foge, comigo Maria
Foge, comigo Maria, já
Foge já.

De quem são estas palavras
que me escreves meu amor,
Se o vento seca as lágrimas
não me cala esta dor.

Foge, comigo Maria
Morre, comigo Maria
Foge, comigo Maria, já

Foge, comigo Maria
Morre, comigo Maria
Foge, que eu fujo contigo, já.


8. MATAS-ME COM O TEU OLHAR

Noites frias de marfim
noites frias ao luar,
A conversa já no fim
matas-me com o teu olhar.

Matas-me com o teu olhar
Matas-me com o teu olhar.

Sabes que esta vida corre
como a sombra pelo chão,
Nada fica, tudo foge
ouve a voz do coração.

Matas-me com o teu olhar
Matas-me com o teu olhar.

São como cubos de gelo
que eu sinto ao tocar,
As palavras têm medo
matas-me com o teu olhar.

Matas-me com o teu olhar
Matas-me com o teu olhar,
Com o teu olhar.

Matas-me com o teu olhar - se me matas
Matas-me com o teu olhar - se eu deixo
Matas-me com o teu olhar - se eu quero
Matas-me com o teu olhar - se me matas.

Matas-me com o teu olhar
Matas-me com o teu olhar,
Com o teu olhar.


9. SARAJEVO (VERÃO 92)

Diz-me que este verão foi mentira
nada disto está a acontecer,
Sarajevo um alvo nas miras
e os polícias do mundo estão a ver.

Jugoslávia bonita, filha da Europa
Fronteiras malditas que o ódio devora
Sarajevo, Sarajevo.

É no centro do velho continente
que a matança das raças se consome,
Esse homem de pé deve morrer
no terreiro de caça só o medo se move.

Jugoslávia bonita, filha da Europa
Fronteiras malditas que o ódio devora
Sarajevo, Sarajevo.

Sarajevo não tem fim
a vergonha está isenta,
Assim apodrece um país
no palco deste planeta.

Jugoslávia bonita, filha da Europa
Fronteiras malditas que o ódio devora
Sarajevo, Sarajevo.

O pior dos animais anda à solta
a vingança nos olhos ancestrais,
Uma solução final que se retoma
Hitler à mesa dos chacais.

Jugoslávia bonita, filha da Europa
Fronteiras malditas que o ódio devora
Sarajevo, Sarajevo.


10. A LÁGRIMA CAIU

Tu sabes bem
que o amor se perdeu,
Não o faças refém
foi meu e teu.

Foi o que foi
o que nós deixamos,
Inocentes os dois
culpados ficamos.

A lágrima caiu
sem tu saberes,
Por ti caiu
a última vez.

A flor da saudade
que nasce selvagem,
Daninha se espalha
por toda a paisagem.

Por todos os locais
em todos os cheiros,
Há histórias reais
de um cativeiro.

A lágrima caiu
sem tu saberes,
Por ti caiu
a última vez.

Um dia, talvez
possamos lembrar,
De novo, talvez
falar sem gritar.

A lágrima caiu
sem tu saberes,
Por ti caiu
a última vez.


11. UMA PALAVRA TUA

Provei o açúcar
de sabor amargo,
Acordei dormente
alguém a meu lado.

Como um castigo
o dia não passa,
Imóvel a presa
o Sol na vidraça.

Nesta indiferença
de não escolher,
A crua verdade
tem rosto de mulher.

Violei as leis
passei entre a chuva,
Em tudo procurei
uma palavra tua.


12. TOCA-ME

Toca-me, sem uma palavra
só a tua pele e a tua alma.

Toca-me, o tempo vai
movendo a luz do meu olhar.

Toca-me, que tenho medo
pode o amor guardar segredo?

Toca-me, nesta penumbra
depois de ti a noite dura.

Toca-me meu amor, toca-me meu amor.

Toca-me, sem uma palavra
só a tua pele e a tua alma.

Toca-me meu amor, toca-me meu amor
Toca-me meu amor, meu amor.


13. NOVE ANOS

Nove anos é tanto tempo
passei a correr por aí,
Com uma guitarra bandoleira
espalhando cinzas pelo país.

Conheci gente de todo o lado
floresta minha uivando sem parar,
E outra gente daqui bem perto
armas escritas surdas a matar.

Há nove anos soltei amarras
Em nove anos peguei de caras, peguei de caras.

Mordi nos sorrisos mais estridentes
hotel à noite outra cidade,
Entrei pelos olhos mais descarados
fácil de mais para ser verdade.

Senti o medo à beira do palco
olhei a cor da provocação,
Armei cantor esse pateta
a glória da vida é uma canção.

Há nove anos soltei amarras
Em nove anos peguei de caras, peguei de caras.

Caí no cerco, caí a fingir
a velha história de camas desfeitas,
Molhei a espera do ouro do whisky
um cabotino que o ódio espreita.

Em nove anos corri sem parar
com as raízes fora da terra,
Diverti-me assim sem ligar
a morte cínica de uma fera.

Há nove anos soltei amarras
Em nove anos peguei de caras, peguei de caras.
Há nove anos.


14. "A MORTE"

"É deprimente. Só eu sei da minha morte. Deste continuar
silencioso, a queda, o rumo irrefutável, que me empurra para
as portas entreabertas. Vós, que cuidais de mim, e do meu
ruído, saibam que o espaço será devolvido. E depois de limpo,
nem um rasto, um fio, uma ideia, um sopro. A doença da morte
é assim, desde que nascemos, como eu nasci."


15. SONHOS NA ESTRADA DE SINTRA

Poisa o teu braço no meu
ajuda-me a seguir,
Ao virar esta esquina
há um paraíso por descobrir.

Não quero que assistas a esta lenta bebedeira
porto-me como uma criança faminta,
Vem embriagar-te comigo à beira
ah, de um barco, copo de absinto.

Mas dança, dança, dança p'ra mim
Dança, dança p'ra mim
À noite, esta noite.

Chegou o momento de parar a farsa
estou farto de conduzir este animal,
Sincero - dizem - no uso da palavra
fotografia - página - jornal.

E se este for o teu sonho
a brisa do tempo mais secreto,
O sonho rasga as entranhas
e os chacais já andam muito perto.

Mas dança, dança, dança p'ra mim
Dança, dança p'ra mim
À noite, esta noite.

O assassino ergueu-se das trevas do sucesso
e conduziu um carro azul por entre círculos de mulheres,
E esse, e esse assassino eras tu
roçando o imenso - quente - prazer de provocar,
Esse assassino eras tu
mulher, mulher, mulher do meu encanto,
Quero o meu nome ou o teu nome
quero o meu nome ou o teu nome.

"Se a festa é vossa, o que é que vocês querem que vos diga?
O concerto começou aqui pelo palco e já passou para aí, há
muito tempo. Esta é a nossa festa, uma troca pura de emoções
entre nós e a nossa imensa família. Obrigado, por estarmos em
casa convosco. Estamos em casa em qualquer sítio. Quais
vagabundos da verdade, por aí, à procura desta troca entre o
palco e a assistência. Os vossos braços não desarmam! As
mensagens que eu vejo escritas por aí, a convidar, a provocar,
a seduzir. Poderá haver neste jogo do palco, sedução?
Há sempre sedução! Se não, morremos de tédio. E o concerto
de rock'n'roll é algo que não morre de tédio. É algo excitante.
E nós merecemos essa excitação. Nós, vós, este ovo, que
hoje é o Coliseu de Lisboa, merecemos esta excitação,
que nos eleva o espírito sobre a rotina de todos os dias."

"Esta comunhão de palavras que eu vos quero dar, mas que
vocês suscitam. Não vou dou, apenas faço de canalizador de
palavras, aquele que vos traz hoje a mensagem. O envelope
está aberto, poderá ser poesia. Não afastem a poesia das
vossas vidas ou vamos morrer todos de tédio. De certeza,
debruçados na vida, e eu quero-vos mais do que isso,
quero-vos convosco. Não vos quero hoje, quero-vos para
sempre! Quero que este dia se repita, que esta noite seja nossa,
para sempre, ao sabor da canção. Ouvindo as vossas palmas,
façam o Coliseu tremer com as vossas palmas. Assim, outra vez,
subindo a serra de Sintra em sonhos pela estrada de Sintra."

Mas dança, dança, dança p'ra mim
Dança, dança p'ra mim
À noite, esta noite.


16. RAPAZ CALEIDOSCÓPIO

Um intelectual de ar estafado
um homem de faces cavadas na noite,
Cruza o Bairro Alto no silêncio dos ténis claros
em passos largos de dança.

Ele é um duro como rock
fã da violência,
E olha a vida pelos óculos
gingando cadência,
Veste cabedal que é napa preta,
Heyahoh la la la.

Quando a fome aperta
ele toma o caminho da fábrica ou do estaleiro,
E na próxima fuga entra na pele do animal
que o torna agressivo, reputação ideal.

Ele é um duro como rock
fã da violência,
E olha a vida pelos óculos
gingando cadência,
Veste cabedal que é napa preta,
Heyahoh la la la.


17. UM COPO CONTIGO

Brindar a tudo
beber por nada,
A maré cheia
e a boca amarga.

Quem bebe assim
merece a taça,
E se ele cair
levem-no a casa.

Vive um homem
nessa figura,
Dançando medos
no fim da rua.

A noite morre
na manhã clara,
É tão difícil
chegar a casa.

Eu não me escondo
não me esquivo,
Eu bebo sempre
um copo contigo.

Um copo, um copo contigo,
Eu não me escondo.


18. MODELO FOTOGRÁFICO

Centelha de fogo
corpo bronzeado,
Lábios vermelhos
sorvendo um gelado.

Esta é a imagem
do anúncio de cartão,
Nua sexy de papel
despertando a ilusão.
Oh, oh, oh.

Ela é a mulher
que tu queres apanhar,
Deste lado da vida
onde andas a pairar.

E quando ela se despe
baloiçando carne viva,
Meio mundo fecha os olhos
e no sonho se excita.
Oh, oh, oh.

19. RUA DO CARMO

Rua do Carmo, rua do Carmo
mulheres bonitas subindo o Chiado,
Mulheres alheias, presas às montras
alguns aleijados em hora de ponta.

Olha como é a rua do Carmo
Olha como é a rua do Carmo.

Jornais que saem do Bairro Alto
putos estendidos, travando o passo,
Onde o comércio cativa turistas
quem come com os olhos já enche a barriga.

Olha como é a rua do Carmo
Olha como é a rua do Carmo.

Soprando a vida passam estudantes
gingando as ancas, lábios ardentes,
Subindo com pressa abrindo passagem
chocamos de frente, seguimos viagem.

Olha como é a rua do Carmo
Olha como é a rua do Carmo,
Heh, heh.


20. MENINA ESTÁS À JANELA

Menina estás à janela
com o teu cabelo à Lua,
Não me vou daqui embora
sem levar uma prenda tua.

Sem levar uma prenda tua
sem levar uma prenda dela,
Com o teu cabelo à Lua
menina estás à janela.

Estás à janela
com o teu cabelo à Lua,
Não me vou daqui embora
sem levar uma prenda tua.

Sem levar uma prenda tua
sem levar uma prenda dela,
Com o teu cabelo à Lua
menina estás à janela,
Cabelo à Lua, menina, estás à janela
cabelo à Lua, menina, estás à janela.


21. MATAS-ME COM O TEU OLHAR

Noites frias de marfim
noites frias ao luar,
A conversa já no fim
matas-me com o teu olhar.

Matas-me com o teu olhar
Matas-me com o teu olhar.

Sabes que esta vida corre
como a sombra pelo chão,
Nada fica, tudo foge
ouve a voz do coração.

Matas-me com o teu olhar
Matas-me com o teu olhar.

São como cubos de gelo
que eu sinto ao tocar,
As palavras têm medo
matas-me com o teu olhar.

Matas-me com o teu olhar
Matas-me com o teu olhar,
Com o teu olhar.


22. ESTOU-ME NAS TINTAS (PRIMEIRO OS MEUS)

A lei da vida
pior que a selva,
Vive a mentira
faz uso dela.

Arma heróis
em cada lar,
Verdade atroz
de tão vulgar.

Estou-me nas tintas
primeiro os meus,
Agarro a vida
que Deus me deu.

"Dá cá o meu"
tudo a gritar,
"Faz como eu
é só sacar."

Dizem à volta
foi sempre assim,
"É esta a escola
faz como eu fiz."

Estou-me nas tintas
primeiro os meus,
Agarro a vida
que Deus me deu.


23. CAVALOS DE CORRIDA

Agora, que a corrida estoirou
e os animais se lançam no esforço,
Agora, que todos eles aplaudem
a violência em jogo.

Agora, que eles picam os cavalos
violando todas as leis,
Agora, que eles passam ao assalto
e fazem-no por qualquer preço.

Agora, agora, tu és um cavalo de corrida.

Agora, que a vida passa num flash
e o paraíso é além,
Agora, que o filme deste massacre
é a rotina Zé Ninguém.

Agora, que perdeste o juízo
a jogar esta cartada,
Agora, que galopas já ferido
procurando abrir passagem.

Agora, agora, tu és um cavalo de corrida
Agora, agora, tu és um cavalo de corrida.


24. NA TUA CAMA

Na tua cama
onde as horas se consomem,
Na tua cama
fui de rapaz até homem.

Mexendo lençóis nos poemas
bebendo aos poucos sem pressa,
Abriste-me o teu abrigo
ficarei preso contigo.

Na tua cama, na tua cama.

Na tua cama
houve murmúrios de ondas,
Na tua cama
o brilho da lua nas águas.

O cheiro do corpo é quente
a ânsia que faz o instante,
Tomar conta de nós
palavras tantas sem voz.

Na tua cama, na tua cama.

E se algum dia nos afastarmos
é porque o jogo não pode durar,
E se algum dia nos encontrarmos
é a vida que eu quero desafiar.

Na tua cama, na tua cama
Na tua cama, na tua cama.


25. (FOGO) TANTO ME ATRAIS

O fogo cresce em lugares incertos
e esse fogo queima aqui por dentro,
O fogo está sempre aqui tão perto
é o meu deserto e eu vivo dentro.

Este vinho escorre e a sede aumenta
um convite directo que não me espanta,
É o fogo proibido que me cerca e tenta
finjo-me perdido a presa certa.

Fogo, fogo, tanto me atrais
Fogo, fogo, tanto me atrais.

O corpo sustenta o tempo suspenso
a poeira imensa que traz o vento,
Tudo me cansa e tudo aguento
a estória recomeça perdendo encanto.

Fogo, fogo, tanto me atrais
Fogo, fogo, tanto me atrais.


26. HESITAR

A noite convida na noite se agita
o vulto esquivo de uma mulher,
Querer tocá-la saber tentá-la
contar-lhe histórias de comover.

Hesitar, hesitar
Não, não consigo evitar
Evitar, hesitar.

Do lado quente do Sol nascente
se tu quiseres o fogo a arder,
Do lado quente se for bem quente
pode doer doer a valer.

Hesitar, hesitar
Não, não consigo evitar
Evitar, hesitar.

É como se a espera
fosse o gozo maior,
E eu a fera
incapaz de melhor.

Hesitar, hesitar
Não, não consigo evitar
Evitar, hesitar.



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